1/3

Desastre da JAL 123 completa 36 anos


JAPÃO - O acidente mais mortífero da história da aviação mundial, envolvendo uma única aeronave, é o voo 123 da Japan Airlines, que bateu no Monte Takamagahara, em Gunma, no dia 12 de agosto de 1985, no fim da tarde japonesa.


Neste ano de 2021, o lamentável desastre que virou destaque no mundo inteiro, completou 36 anos nesta quarta, dia 12 de agosto. O avião decolou do Aeroporto de Haneda com destino ao Aeroporto de Osaka (ou Aeroporto de Itami), aparentando ser um voo de rotina.


Os passageiros iriam fazer uma viagem a sua terra natal para comemorar o Feriado Obon, onde nesta época do ano, os japoneses vão a casa de seus ancestrais para homenageá-los.


Dentre os passageiros, estava o famoso cantor Kyu Sakamoto, conhecido pela música "Sukiyaki", indispensável em muitas rádios de cultura oriental.


Porém, para 520 pessoas que embarcaram neste avião, a viagem mudaria tragicamente de sentido: ao invés de honrar os seus mortos, iriam se juntar a eles.


Acidente


Não durou nem quinze minutos após o Boeing 747 levantar do chão, uma forte explosão ocorreu na parte de trás do avião fazendo com que perdesse toda a sua estabilidade e sua potência hidráulica, além de fazer com que a aeronave despressurizasse.


Os pilotos mantinha contato com a Torre de Tóquio e se esforçavam para controlar o avião na tentativa de retornar ao Aeroporto de Haneda, porém após muitos esforços em vão, o avião bateu as 18h56 numa montanha perto do Vilarejo de Ueno, em Gunma.


Foram mais de 30 minutos de pânico e desespero, tanto para a tripulação como para os passageiros, que além da adrenalina também alguns ficaram sem respirar em virtude da despressurização.


Notas de despedida


Do momento da explosão traseira até a batida final, alguns passageiros tendo certeza que infelizmente não sobreviveriam, começaram a escrever notas de despedida aos seus amigos e familiares:


O cantor Kyu Sakamoto escreveu a seguinte nota: “Meus filhos, cuidem bem de sua mãe. O avião está caindo e uma fumaça branca vem vindo logo atrás. Talvez dure uns cinco minutos até lá. Se eu sobreviver, nunca mais na minha vida eu entro em um avião!“.


Porém, vendo que o inevitável iria acontecer, escreveu mais outro bilhete, desta vez ao filho mais velho, Tsuyoshi: "É uma causa perdida, sem esperança, minha vida foi boa e alegre. Tsuyoshi, por favor, cuide bem de todos. Deus nos ajude. Adeus!"


Um outro bilhete encontrado no meio dos destroços era de um outro passageiro que dizia a seguinte frase: "Machiko, tome conta dos meninos!"


Causa do acidente


A causa do acidente foi causada por uma falha técnica causada por uma manutenção mal realizada, em virtude de um incidente que ocorreu há sete anos atrás, quando a mesma parte onde o avião sofreu uma explosão, havia pousado de forma errada, batendo o mesmo local no chão.


Também, consta a descompressão o que ocasionou a perda dos controles e do sistema hidráulico da aeronave, deixando-o fora de controle até sua batida final na montanha.


Em entrevista ao Jornal Asahi, Ryoichi Ogawa, filho de seus pais que estavam na aeronave, tirou fotos com imagens de dentro da aeronave antes e durante os 30 minutos de desespero


Ryoichi Ogawa deveria fazer uma viagem divertida em família para a Disneylândia de Tóquio, mas ele recusou terminantemente.


“Já estou no ensino médio”, protestou o adolescente rebelde, rejeitando a oferta. “Por que diabos eu tenho que fazer uma viagem com meus pais?”


Sendo assim, depois de tanta discussão, resolveram voar sem ele. Durante o voo para casa, os três tiraram fotos da Baía de Tóquio, do Monte Fuji e das nuvens avermelhadas que brilhavam com o pôr do sol.

Eles pretendiam fazer muitas memórias divertidas e, talvez, contar a Ogawa o que ele havia perdido depois de optar por sair da aventura familiar. Porém, jamais tiveram a oportunidade.


O pai de Ogawa, Satoshi, 41, sua mãe, Masako, 43, e sua irmã mais nova, Chisako, 8, não estavam entre os quatro que milagrosamente sobreviveram.


Ogawa, agora com 51 anos, foi a um necrotério improvisado em Fujioka, província de Gunma, e esperou. Demorou cerca de uma semana para a equipe de resgate encontrar os três corpos.


“Eu fiquei tão tenso. Não senti tristeza, para ser sincero ”, disse ele, relembrando os dias de espera. "Não me lembro de chorar muito."


A polícia abordou Ogawa com os pertences pessoais da família, retirados dos destroços do jato jumbo acidentado. Era uma câmera contendo um rolo de 24 exposições. A polícia mostrou a ele as 10 imagens que sua família capturou no filme.


A maioria foi tirada imediatamente após a decolagem, capturando o cenário da janela do avião.

O tom das imagens mudou drasticamente nos dois quadros finais: Máscaras de oxigênio estavam penduradas no teto. Provavelmente foi o momento logo após a quebra da antepara de pressão do avião.


Uma foto capturou um comissário de bordo no corredor instruindo os passageiros a colocarem as máscaras.


“Estas são as únicas fotos que encontramos que capturaram o que estava acontecendo dentro do avião”, disse a polícia a Ogawa, que acredita que seu pai tirou as fotos.


A polícia da província de Gunma manteve a câmera como parte da investigação do acidente.


O comitê investigativo do Ministério dos Transportes concluiu que um erro de reparo cometido pela Boeing, fabricante da aeronave, foi o que provavelmente causou o acidente.


A polícia acusou pessoas relacionadas à JAL e à Boeing por homicídio corporativo. Mas o caso foi posteriormente abandonado, em virtude do caso ter expirado cinco anos depois, em 1990. A câmera foi então devolvida a Ogawa, que na época era estudante universitário.


“Quero que essas fotos se tornem um impedimento para acidentes”, pensou Ogawa. Ele então deu uma entrevista coletiva e mostrou seis das dez fotos para a mídia.


Ele ainda se pergunta o que fez seu pai capturar o momento caótico no avião, sabendo que ele nunca obterá a resposta.


Em 2015, Ogawa doou algumas das fotos para as instalações da Japan Airlines para treinamento e educação de segurança em Ota Ward, em Tóquio.


A empresa inaugurou as instalações em 2006, principalmente para seus funcionários, para manter vivas as memórias e as lições de um dos acidentes de avião mais mortais do mundo.


Ogawa soube que muitas pessoas que trabalham nas indústrias de transporte e médicas visitaram as instalações. Ele então pensou que as fotos poderiam ter um impacto positivo não apenas sobre os trabalhadores das companhias aéreas, mas também sobre aqueles que são responsáveis ​​por proteger a vida das pessoas.


As imagens agora estão em exibição ao lado dos destroços do avião e das notas de despedida que os passageiros deixaram.


"Espero que as fotos da minha família façam os visitantes pensarem sobre segurança e o que levou ao acidente", disse Ogawa.


O acidente mudou Ogawa também. Seus dias de adolescente rebelde haviam acabado. Ele tinha que tomar decisões sobre tudo, sozinho. Ele não tinha mais ninguém para culpar, Ogawa lembrou.


Depois de se formar na universidade, ele foi estudar na Grã-Bretanha. Ogawa mochilou pela China e Mongólia, entre os países que viajou.


Essas experiências o inspiraram a se envolver em projetos de ajuda em países em desenvolvimento e, eventualmente, a operar seu próprio negócio. Normalmente, ele agora passa meio ano no exterior.


Ele também foi abençoado com dois filhos. Um é estudante universitário e o outro ainda está no ensino médio.


“Como pai, vejo coisas que não via quando era criança”, disse Ogawa. Ele pensa freqüentemente em seu falecido pai.


Todo inverno, Ogawa leva seus filhos para uma viagem de esqui. Isso o lembra de quando seu pai o levou em um trem noturno da Prefeitura de Osaka para a Prefeitura de Toyama para ensiná-lo a esquiar.


“Eu faço isso instintivamente”, disse ele. "Acho que herdei isso do meu pai."


Cinco anos atrás, Ogawa levou seus dois filhos pela primeira vez ao Monte Osutakayama. Eles caminharam até o cume juntos.


“Eu me senti tão abençoado por poder visitar lá com toda a família”, disse Ogawa.


Para o aniversário deste ano que marca o acidente, Ogawa decidiu não participar da caminhada anual até o cume e da cerimônia para famílias enlutadas.


Em vez disso, ele ficou em casa. Quando o relógio marcava 18h56 em 12 de agosto, Ogawa calmamente juntou as mãos e se lembrou da família que perdeu há 35 anos.


Mas ele, desta vez, não estava sozinho. Sua própria família estava com ele, orando juntos.


Todos os dias 12 de Agosto é realizado uma cerimônia memorial em homenagem a vida das vítimas que não conseguiram sobreviver ao acidente


Todos os anos no dia 12 de agosto, muitas pessoas, incluindo o público em geral, sobem o Takamagahara, para prestar seus respeitos às vítimas.


Entretanto, para evitar a propagação do coronavirus, a aldeia e outros organizadores limitaram o número de pessoas que podem subir a montanha às famílias enlutadas e pessoas relacionadas, e instalaram um portão no início da trilha por três dias a partir do dia 11.


A cerimônia memorial do dia 12, que será realizada no "Jardim da Memória" no sopé da montanha, será realizada às 18h56, no mesmo horário do acidente.


36 anos se passaram desde o acidente do dia 12, mas espera-se que algumas das famílias enlutadas desistam de escalar a montanha novamente este ano por causa da idade e da pandemia, e a questão é como transmitir a memória e as lições do acidente.